18 de abril de 2024
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Irmão de Lair Guerra faz relato emocionante; morte da piauiense repercute no País

Foto: arquivo pessoal

A comunidade cientifica do Brasil lamentou profundamente a morte da biomédica Lair Guerra de Macedo Rodrigues. A piauiense, natural de Curimatá, 775 km ao Sul de Teresina, estava internada na UTI de um hospital de Brasília (DF) desde o início do ano, após ter sido diagnosticada com pneumonia. Ela morreu nesta quarta-feira (13), aos 80 anos. Lair idealizou o programa Nacional de Combate a Aids, do Ministério da Saúde, seu trabalho foi exemplo para o mundo que chegou a ser indicada ao prêmio Nobel da Paz.

O irmão da piauiense Júlio Borges escreveu uma mensagem emocionante relatando os últimos dias da biomédica.

“…fica apenas as muitas recordações e sua página de serviços ao Brasil e ao mundo. A terra perde uma mulher rara. Lair tinha uma fé cristã robusta capaz de ver o invisível, tolerar o intolerável e vencer o invencível”, escreveu Júlio Borges. Leia toda a mensagem logo abaixo. 

O Ministério da Saúde também publicou mensagem pela morte de Lair.

“Lair Guerra foi pioneira na construção de políticas públicas no Brasil para o enfrentamento da Aids, tendo sido nomeada para coordenar o programa do país para controle da doença na década de 80. Sob a coordenação de Guerra, surgiram as campanhas nacionais de rádio, televisão e mídia impressa para informar a população e qualificar profissionais para o combate às DST/Aids. O trabalho da biomédica lhe rendeu a indicação ao Prêmio Nobel da Paz por tornar o programa brasileiro exemplo para o mundo”.

Leia toda a nota do Ministério da Saúde aqui: 

A Fiocruz publicou uma mensagem de agradecimento aos trabalhos prestados a ciência e disse que seu legado jamais será esquecido.

“É inegável que a marca deixada pela Dra. Lair, nos anos em que esteve à frente do Programa, inspirou e influenciou gerações de profissionais…O dia de hoje é, portanto, de luto e tristeza, mas também um dia para relembrar que este país possui homens e mulheres valorosos que pelo seu caráter e atuação constroem pontes para o progresso, fazem história e tornam-se inspiração para gerações. Dra. Lair, certamente, é um desses inequívocos exemplos”.

Leia mensagem da Fiocruz

Veja mensagem publicada pelo irmão de Lair Guerra, Júlio Borges.

Uma mulher rara e de fibra

 Em memória de Lair Guerra de Macedo Rodrigues

Hoje, quarta-feira 13 de março de 1024, às 06:15 horas no Hospital Santa Luzia de Brasília, minha irmã Lair foi promovida à Glória. Precisamente às 06:31 recebi o comunicada seu filho caçula Julio Carlyle: “Tio, minha mãe faleceu. Ela vai ser cremada no mesmo lugar que papai foi.” Ontem à tardezinha, quando a visitei com Gil ela estava tão tranquila e linda dentro da paz que excede todo entendimento. É que Deus já a estava recebendo. Aqui fica apenas as muitas recordações e sua página de serviços ao Brasil e ao mundo. A terra perde uma mulher rara.

Vejo Lair, embora seja mais novo que ela um ano e quatro meses, ainda pequena lá no Gety, nossa Curimatá natal no sul do Piauí. Vejo-a teimosa, corajosa e decidida não se dobrando à temível palmatória de nossa mãe. Veja-a nos programas da escola do Prof. Samuel se oferecendo para recitar versos numa espontaneidade sem igual: “Sou filhinha de papai de perna grossa. Vestido curto papai não gosta”; “Sou doceira de verdade, faço de qualquer qualidade. Só que um dia eu errei, em de açúcar, poder duas colheres de sal.” O auditório aplaudia e ela saia feliz e correndo. Vejo-a estudando em Corrente, depois em Recife, e recordo-me do seu casamento com Juninho na capela do SEC – Seminário de Educadoras Cristãs celebrado pelo Pastor Merval Rosa.

Acompanhei a chegada dos filhos (Ana Heloísa, Silviane, José Neto, João Ádson e Julio Carlyle)  no Colégio Americano Batista e o crescimento deles. Filhos crescidos, mais estudos culminando com o mestrado em microbiologia nos EUA. Fui pastor da família em Teresina quando foram para a Universidade Federal do Piauí.  Privilégio depois repetido  aqui quando vieram para a Universidade de Brasília.  A luta pioneira no Brasil e no mundo no Programa Brasileiro de DST/Aids  no Ministério da Saúde que lhe deu projeção nacional e internacional. Por este trabalho de dez anos desde 1986, trabalhando com dez ministros da saúde, chegou a ser indicada para o Prêmio Nobel da Paz classificada como uma das mulheres que mudaram o mundo. Presenciei várias homenagens a ela, inclusive o título de Cidadã Honorária de Brasília concedido pela Câmara Legislativa do DF. Veio o desastre em agosto de 1996 em Recife com o traumatismo craniano que mudou sua vida, mas não mudou sua determinação e sua fibra. Ela tem alicerces para baixo e para cima capazes de suportar as intempéries da vida. Por isso sempre dizia: É Deus quem me sustenta.

No ano passado, precisamente no dia 25 de março, seus filhos e família comemoraram os 80 anos de Lair Guerra de Macedo Rodrigues no SMDB Conjunto em Brasília com a  presença de três irmãos dela (Delile, Alvimar e eu), de duas cunhadas (Marieci e Gislene), de todos os filhos, de duas noras (Marjorie e Carolina), de quatro netos (João Paulo, Manuela, Thomas e Isabella), de um sobrinho (Marco Antonio) e outras pessoas amigas, Foi uma bela festa com belo jantar. Quando perguntaram a ela se queria dizer alguma coisa, ela respondeu bem no seu estilo: “Estou muito feliz, mas quero dizer que meu aniversário não é hoje, mas no dia 28.” O bolo dos 80 anos estava lindo. Acho que aquela festa foi sua despedida porque logo a seguir vieram muitas dificuldades. Esteve no sepultamento de nosso irmão Alvimar no dia 01 de julho, já em cadeira de rodas, e ainda estava bem lúcida. O segundo semestre do ano passado foi difícil com idas e vindas ao hospital até chegar ao home care em casa. Suas cuidadoras foram anjas de Deus a seu lado e foram várias: Fátima, Vera, Maria, Vânia, Camila, Vanessa, Joice, Talita, Eduarda, Sara, etc. Neste período eu a visitava semanalmente com Gil, minha esposa, cantávamos hinos conhecidos e textos bíblicos e ela nos acompanhavam. No Hospital Santa Luzia eu a visitava com Gil de dois em dois dias. Conversávamos com ela, Gil fazia massagens nos seus pés, cantávamos um hino do Cantor Cristão, e líamos um texto bíblico e eu fazia uma oração sempre achando que ela, mesmo em coma, ouvia alguma coisa e na certeza de que o Espírito Santo se comunicava com ela. Lair tinha uma fé cristã robusta capaz de ver o invisível, tolerar o intolerável e vencer o invencível. Seus irmãos, ainda sobreviventes, somos agora apenas quatro dos onze: Delile, Carlyle, eu e Nilce.

Agora que ela, finalmente, está na Glória do Céu, podemos ouvir as palavras do Senhor Jesus: “Muito bem, serva boa e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do Teu Senhor.” – Mateus 25:21.
Para concluir deixo aqui o soneto dos seus 80 anos:

UMA MULHER DE FIBRA

Desde pequena já era forte e decidida…
A palmatória de mamãe não bastava
Para abater a sua alma mui aguerrida,
E ela lutava, persistia, sempre teimava.

Cresceu com a beleza das carnaubeiras,
Com a saúde e o verdor dos juazeiros,
Estudou à sombra de belas mangabeiras
Com garra e a sabedoria dos espinheiros.

Cresceu estudiosa, aplicada e boa cristã,
Casou-se e, sonhando com o amanhã,
Teve com seu amor maravilhosos filhos.

E sempre estudando, lutando com arte,
No auge de sua vida veio o desastre…
Tudo mudou, mas conservou os brilhos.

O governador Rafael Fonteles e a OAB também divulgaram nota de pesar. (leia aqui). 

Por Yala Sena / CidadeVerde

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