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Jacobina do Piauí
15 de junho de 2024
Cidades em Foco
Baú

Na prisão: tentativa de reaprender a vida

O secretário de Justiça do Estado esteve hoje visitando a penitenciaria José de Deus Barros. E, com ele, uma grande comitiva de picoenses estive no local. Os moradores de um pavilhão estavam na plateia, ou deveria dizer, na nave da igreja. Fazendo jus ao nome “de Deus” da instituição, os representantes de igrejas estavam presentes. Falaram, cantaram e, falaram.  Os fiéis, compenetrados, louvavam e davam “glórias a Deus” com mais fervor que os do templo evangélico.

 O primeiro representante, o pároco falou sobre a unidade do corpo, a necessidade dos membros externos cuidar bem dos membros “internos”, afinal, apesar de tudo,  para que o corpo funcione o intestino é o que mais necessita está equilibrado.  Bom nem pensar em desarranjo interno. De nenhum corpo.

Depois veio um representante evangélico, com um grupo de louvor e de teatro. E evocou ao fatídico jogo 7 X 1, onde a Alemanha,( talvez uma reencarnação de Hitler) estaria na posição do demônio. E mais uma vez, conforme as crenças religiosas, atribuiu algumas responsabilidades ao chifrudo.

Perguntei-me se aquelas criaturas, todas crentes tremendos e tremendo, não estariam num processo de êxtase e/ou êxodo de si mesmo?   Até que ponto esta fuga religiosa faz bem à sua reflexão como pessoa que necessita se purgar para voltar ao convívio social externo?

Mas reflexões à parte, seguimos o roteiro do evento. Até mesmo a chefe de cerimônia, se mostrou uma maestra na arte de puxar o coro. Cantava e animava o culto. O melhor mesmo foi vê-la fazendo dupla com o secretário e cantar É preciso saber viver.

O espaço me incomodou, me provocou e acabou me deixando mais confusa que o meu estado normal de insanidade.  O lugar é inóspito, sujo, apesar de ter sido lavado pra receber as honrosas visitas.  Para quem habita a região dos picos e conhece o clima dantesco, como imaginar que um ser possa sobreviver às altas temperaturas naquele ambiente.

Interrogações aos meus botões: será que aquela situação reeduca alguém? No mínimo aliena com algumas interpretações dogmáticas. Percorri todo espaço, que para descrevê-lo talvez a melhor comparação fosse a um canil para cães de rua. Não vi nenhum livro, salvo um com um título bem sugestivo, Eu creio. Pelo menos lhes resta esta fé para sobreviver ao aislamento.

Para o bem de todos, o secretário anunciou grandes avanços para o sistema: alfabetização, EJA, preparatório para Enem e ainda o Projeto Leitura Livre: mais que leitura, cidadania. Em que trará o incentivo de quem lê um livro e fizer uma resenha vai valer por quatro dias de pena.

E assim, torçamos para que a leitura possa dar asas e libertar algumas mentes atormentadas.

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