Os pesquisadores paulistanos Eduardo Pontin e Francisca Sousa, autores do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, acabam de encerrar temporada de 2 meses no Piauí, vivenciando intenso intercâmbio cultural com comunidades rurais tradicionais. Os agentes culturais estiveram em 10 comunidades rurais e 7 quilombos distribuídos em 12 municípios.
Eduardo e Francisca já haviam morado no sertão piauiense durante 2 anos, entre 2020 e 2022, período em que consolidaram conteúdo junto a diversas comunidades para a obra que publicaram. Dessa vez, a ideia era revisitar os lugares e as pessoas dessas localidades e conhecer novos redutos, promovendo a cultura da região, revivendo, assim, 2 anos em 2 meses. Para essa empreitada, Pontin e Sousa contaram com o apoio da Prefeitura de Floresta do Piauí, sob a gestão de Claudionor Urbano, em parceria com Milton Rodrigues.

SALIPI – Teresina
A primeira parada dos pesquisadores foi no lançamento do livro sobre a Lezeira no Salão do Livro do Piauí (Salipi), realizado na Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, no dia 14 de junho. O evento aconteceu na Arena Cordel e contou com debate dos autores e mediação do musicólogo Vagner Ribeiro.

Após a fala dos autores, o grupo Lezeira de Floresta se apresentou no espaço Rosa dos Ventos e foi muito apreciado pelos teresinenses, que em pouco tempo, já estavam dançando juntos com os florestenses. No dia 15, o grupo e os pesquisadores pegaram a estrada e foram para a Floresta do Piauí, cidade natal de Francisca.

Retomada Lezeira de São Francisco do Piauí
A Lezeira do município de São Francisco do Piauí não foi retratada no livro, pois até então nenhum detentor dessa brincadeira havia indicado esta cidade. Porém, os pesquisadores foram convidados para o Primeiro Festival de Cultura Popular de São Francisco do Piauí, onde a Lezeira da comunidade rural da Serrinha seria retomada. Assim, no dia 21 de junho, Eduardo, Francisca e o pequeno Raul rumaram para lá, percorrendo uma distância de 140 km.
Durante o dia, os pesquisadores da Lezeira entrevistaram as cantadeiras Dona Francisca e Dona Lúcia, além do cantador João Luiz. De noite, foram convidados a fazer parte da mesa de honra do festival, junto com as autoridades do município. A Lezeira da Serrinha se apresentou e Eduardo e Francisca produziram a reportagem “Lezeira de São Francisco do Piauí é retomada”, para o jornal GGN.

Oeiras: Lezeira em estado de memória
Aproveitando o trajeto, Eduardo, Francisca e Raul foram para Oeiras no dia 22 de junho, a 90 km de São Francisco, no caminho para Floresta. Embora a Lezeira de Oeiras tenha sido abordada no livro, até então os pesquisadores não haviam tido contato com os brincantes de lá. Por isso, foram em direção ao Quilombo Canto Fazenda Frade, onde sabiam que residia Seu Geraldo (Geraldo Moreira Lima, 1940), cantador veterano de Lezeira.

Seu Geraldo os informou que há muitas décadas a Lezeira adormeceu em Oeiras, onde era fortemente praticada. Além disso, Seu Geraldo indicou outra cantadeira, Dona Maria de Beato (Maria Alzenira dos Santos Santana, 1950-). Os pesquisadores então foram entrevistar Dona Maria, que afirmou: por ela, a Lezeira estava viva ainda hoje.
Eduardo e Francisca tentaram ainda contato com outra cantadeira, Dona Alexandrina, conhecida por Xanda, mas não conseguiram encontrá-la. Os pesquisadores não tiveram tempo de ir a outras localidades de Oeiras com histórico de Lezeira, como Queiroz, Canadá e Gonçalaves. Mas, ao que parece, a Lezeira se encontra em estado de memória na primeira capital do Piauí.

Quilombo Custaneira
No dia 30 de junho, Eduardo e Francisca foram ao Quilombo Custaneira, a 45 km de Floresta, acompanhados de Mestre Gabiru, Mestre Zé de Anísia, Tia Helena, Expedito, Antônio Neto, Aparecida e Ciça, brincantes de Floresta. Era o derradeiro dia do Festejo do Sagrado Coração de Jesus, noite em que diversas atividades acontecem, sob a liderança de Dona Rita e Mestre Naldim: reza de benditos; derriba do mastro; Roda de São Benedito; leilão e, por fim, a dança da Lezeira, seguida de Batuque.
O Quilombo Custaneira foi importante na confecção do livro, pois lá Mestre Naldim introduziu instrumentos de percussão na brincadeira e hoje naquela localidade se pratica o Batuque de Lezeira. Além disso, a partir da mediação de Eduardo e Francisca, a Lezeira do Quilombo Custaneira foi certificada como Patrimônio Vivo do Piauí, em 2024.

Noite cultural em Floresta
Já no dia 4 de julho, foi a vez de Floresta do Piauí ser palco de noite cultural histórica. Apoiada pela Política Nacional de Fomento à Cultura Aldir Blanc, a Prefeitura da cidade promoveu encontro de mestres e mestras de cultura em sua praça central. Eduardo Pontin e Francisca Sousa foram os mestres de cerimônia do evento, que contou com apresentação dos aboiadores de gado Zé de Anísia, Jú de Oscar, Gabiru e Adãozinho Aboiador.
Em seguida, entrou em cena o Reisado, também enfrentado por Gabiru, e os caretas Zé de Anísia e Adãozinho. Após o Reis, Mestre Gabiru ainda enfrentou roda de Lezeira que deu o que falar, já que muita gente decidiu entrar e brincar. Por fim, a noite foi encerrada com apresentação de grupos de Forró Pé de Serra de Floresta.

Circuito cultural da Lezeira
Seguindo a peregrinação pelo circuito cultural da Lezeira, entre os dias 06 e 08 de julho, Eduardo Pontin e Francisca Sousa visitaram mais três comunidades tradicionais: o povoado Boa Vista, que fica entre as cidades de Picos e Aroeiras do Itaim; o povoado Tombador, no município de Itainópolis; e a comunidade Quilombola Mutamba, em Paquetá. De Floresta para Boa Vista, Eduardo e Francisca percorreram 100 km. A Lezeira da Boa Vista é liderada por Seu Chico Guilherme, de 84 anos, e seu filho Zé Melin.

Já no povoado Tombador, embora haja grandes cantadores como Seu Simpilício, Seu Vicente de Cassiano e Davi Simpilício, as mulheres é que dão o tom da brincadeira. O terreiro onde a Lezeira acontece é o da casa de Dona Iraci, cantadeira certificada Patrimônio Vivo do Piauí em 2022, a partir da mediação de Francisca Sousa e Eduardo Pontin. Outras cantadeiras se destacam no Tombador, como Dona Mercê, Dona Irene, Dona Teresinha, Dona Lúcia e Dona Bézinha, comprovando o protagonismo da mulher na Lezeira. Da Boa Vista para o Tombador, os pesquisadores viajaram 40 km em estradas de rodagem.

Encerrando as visitas a comunidade da Lezeira, Pontin e Sousa percorreram mais 80 km e foram ao Quilombo Mutamba, para uma noite de brincadeira no terreiro de Seu Raimundão da Mutamba, primeiro cantador desta expressão cultural certificado como Patrimônio Vivo do Piauí, em 2021, também através de mediação dos pesquisadores. Além de Seu Raimundão, na Mutamba os outros enfrentantes são Nêga Dominga, Seu Godelo, Dona Da Luz e Dona Didi.

Lezeira em Santo Inácio do Piauí
No dia 09 de julho, Eduardo e Francisca já estavam em Floresta, de onde partiriam no dia seguinte para Santo Inácio do Piauí. Os pesquisadores foram convidados por Maurinha, professora e filha da grande dançadeira de Lezeira Chica Calmosa, para um bate-papo sobre o livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira” com a turma do EJA (Educação de Jovens e Adultos), da Escola João Sousa Moura, encerrando a programação da Semana Junina daquela instituição. Pontin e Sousa foram acompanhados do Grupo Lezeira de Floresta e, ao término do bate-papo, a Lezeira entrou em cena, com alunos, professores e diretores participando da dança.

Redutos de Batuque
Finalizando o ciclo de atividades culturais, os pesquisadores visitaram dois importantes redutos do Batuque do Piauí, tipo de samba rural da região. No primeiro deles, no dia 5 de julho, os pesquisadores percorreram 150 km e foram a Comunidade da Malhada, que fica no Território Quilombola Riacho dos Negros no município de São João do Piauí. Lá, foram apresentados a integrantes do grupo Batuque de Negros e Negras do Bras da Malhada, liderado por Dona Neta e Seu Valdomiro. O Batuque do Bras hoje é Patrimônio Vivo do Piauí, o que aconteceu a partir de mediação de Eduardo e Francisca.

No dia 11 de julho, os pesquisadores foram para o Quilombo Volta do Campo Grande, para uma noite de Batuque do grupo Samba de Cumbuca da Volta. Eduardo e Francisca foram acompanhados de Mestre Gabiru, Pedão, Expedito, Nêga de Chico de Joana, Ciça e Tunim. Ao chegarem por lá, foram muito bem recepcionados por Inácio de Minga e Pepeta, lideranças da comunidade. Neste dia, o couro comeu e o samba rolou solto.

Dia 13 foi a vez dos sambistas da Volta visitarem Floresta, para o aniversário de 60 anos de casados de Mestre Gabiru e Dona Teresa. Foi uma grande noite, quando os batuqueiros dos dois redutos de Samba puderam fortalecer seus laços sambistícos, como historicamente seus antepassados faziam.

Mestres e Mestras Patrimônios Vivos da Cultura do Piauí
Durante esses 2 meses, Eduardo Pontin e Francisca Sousa aproveitaram também para visitar mestras e mestres de cultura hoje certificados como Patrimônio Vivo do Piauí, graças à mediação dos pesquisadores. Da comunidade da Lezeira: Chiquim Ferreira e Gabiru (Floresta); Dona Chica Tomé (Wall Ferraz); Pai Pedim de Aruanda (Quilombo Atrás da Serra – Santa Cruz do Piauí); Dona Rita e grupo Lezeira do Quilombo Custaneira (Paquetá); Seu Raimundão da Mutamba (Paquetá); e Dona Iraci do Tombador (Itainópolis). Da comunidade do Batuque: Véi Tôim (Quilombo Salinas) e Samba de Cumbuca do Quilombo Volta do Campo Grande (Campinas do Piauí); e Batuque de Negros e Negras do Brás da Malhada (São João do Piauí). Também estiveram com o único Mestre Patrimônio Vivo do Piauí certificado por ser Aboiador de gado: Adãozinho Aboiador (Floresta).

Academia Florestense de Cultura Popular
Mestras e Mestres da Academia Florestense de Cultura Popular também receberam a visita dos pesquisadores. Da comunidade do Batuque de Floresta: Afonso Matias; Seu Espedito de Margarida; Mestre Zé de Anisia; Tia Helena; Tia Bilunga; e Tia Mariinha. Outros mestres da Academia que se reuniram com Eduardo e Francisca foram os rezadores Chico de Helena, Dona Brancosa e Nêga de Chico de Joana; a parteira Dona Firmina; os pagadores de promessa de São Gonçalo Zé Miúdo e Dona Lucimar; o baterista de Forró Pé de Serra, Seu Vitalino; o Reiseiro Seu Dodó; o vaqueiro Inácio de Simão; a artesã de palha de carnaúba, Dona Chichica; e o aboiador Adãozinho Aboiador. A nota de pesar foi o falecimento da Mestra Dona Helena Ferreira, cantadeira de Lezeira, no dia 26 de junho de 2025.

2 anos em 2 meses
O apoio da Prefeitura de Floresta do Piauí, sob a gestão de Claudionor Urbano, com a contribuição de Milton Rodrigues, foi fundamental para que essa odisseia cultural pudesse ser concretizada. Por onde passaram, Eduardo Pontin e Francisca Sousa promoveram a cultura do sertão do Piauí, florindo localidades com rodas de Lezeira e de Batuque, revivendo, assim, 2 anos em 2 meses.


