O pequeno município de Floresta do Piauí, localizado no coração do sertão, a cerca de 400 km de Teresina, com pouco mais de 2.500 habitantes, possui a maior população per capita de todo o estado de Mestras e Mestres Cantadores de Lezeira. Por essa razão, é conhecido na região como Capital da Lezeira. A ligação com a Lezeira é tão grande que, em 2021, a Secretaria de Educação de Floresta do Piauí entrou com pedido junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para a Lezeira se tornar Patrimônio Cultural Brasileiro. Por tudo isso, Floresta do Piauí está em festa com a indicação ao Prêmio Jabuti do livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”, de Eduardo Pontin e Francisca Sousa.

A história dessa obra começou em Floresta, quando Francisca, que é florestense, foi morar lá com Eduardo e o pequeno Raul durante a pandemia, entre 2020 e 2022. Em Floresta, os pesquisadores se encantaram com a Lezeira e puderam conviver de perto com mestras e mestres, assim como presenciar pela primeira vez uma roda dessa brincadeira, no terreiro de Seu Dodó, em outubro de 2020. Era o começo de uma grande jornada.

Mestres cantadores do passado
Segundo os autores, os maiores Cantadores de Lezeira do passado de Floresta foram Ti Gusto (Augusto Raimundo Torres, 1921-2006), Raimundo de Vicente, Chiquim de Margarida (Francisco José de Lima, 1906-1965), Canjica (Evangelina Maria de Sousa, 1932-2018), entre outros.

Mestras e Mestres Cantadores hoje
Floresta do Piauí tem dois Mestres Cantadores de Lezeira certificados pelo Governo do Estado como Patrimônio Vivo da Cultura do Piauí: Chiquim Ferreira (89) e Gabiru (79). Além disso, sete mestras e mestres são reconhecidos pelo poder público local como Imortais da Cultura de Floresta: Espedito de Margarida (97), Dona Bilunga (90), Tia Mariinha (87), Zé de Anísia (85), Dona Brancosa (82), Tia Helena (79) e Seu Dodó (75). Todos eles são retratados na obra, com destaque para Seu Chiquim e Gabiru, que têm perfil biográfico individual no livro.

Academia Florestense de Cultura Popular
Para prestigiar a cultura de Floresta, com o apoio da gestão do Prefeito Milton Rodrigues, Francisca e Eduardo fundaram, em 2021, a Academia Florestense de Cultura Popular, diplomando 20 mestras e mestres de cultura do município. A partir da Academia, o Reisado da cidade foi retomado após mais de 40 anos de inatividade, intercâmbios culturais com comunidades vizinhas passaram a ser feitos e a Lezeira passou a ser mais reconhecida. Mas principalmente, as mestras e mestres passaram a se sentir mais prestigiados e respeitados com este reconhecimento do poder público municipal.

Lezeira no Terreiro de Dilsim e Hosana
Hoje o lugar preferido pelos florestenses para brincar a Lezeira é no terreiro da casa de Dilsim e Hosana, que fica no povoado chamado Volta, no interior da cidade. Dilsim e Hosana há alguns anos tomaram pra si a responsabilidade de promover a Lezeira em Floresta na Sexta-Feira Santa, data mais tradicional da brincadeira. Assim, toda Sexta-Feira Maior, os mestres e mestras de Lezeira de Floresta se reúnem no terreiro do casal e se divertem até o cansaço bater e a leseira dominar seus corpos.

Jornalista florestense: Lezeira de berço
Francisca Sousa é florestense, mas foi criada em São Paulo, onde se formou em jornalismo e fotografia. Com a pandemia, regressou à sua terra natal onde pôde se conectar com a história de sua família, que pratica a Lezeira há mais de um século em Floresta. Inclusive, o elo mais antigo que se tem da Lezeira no município de Floresta é justamente da família de Francisca.
Sua bisavó, Firmina Maria de Jesus (1884-1949), era filha de indígena e foi dançadeira fina de Lezeira. Já o avô de Francisca, Ângelo Torres (Ângelo Raimundo Torres, 1911-1959), embora não brincasse, foi grande aglutinador da Lezeira na primeira metade do século 20, promovendo a brincadeira no terreiro de sua casa. Ti Gusto, que segundo a memória afetiva da cidade, foi o maior cantador de Lezeira de Floresta, era tio-avô de Francisca. Por fim, sua mãe, popularmente conhecida como Dona Chica (Francisca Ana de Sousa, 1953-2012), também foi grande dançadeira de Lezeira. Assim, Francisca pertence à 4ª geração de Lezeira na cidade de Floresta, razão pela qual manifestou seu lugar de fala ao escrever o prestigiado livro “Vamô Vadiá Nesta Lezeira”. Os autores dedicam a obra indicada ao Prêmio Jabuti a memória de Dona Chica. A comunidade da Lezeira de Floresta está em festa.


