A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) mais recente mostra que apenas 24,7% dos lares com televisão estavam conectados a alguma plataforma de streaming em 2024, contra uma média nacional de 43,4%.
Trata‑se da menor taxa entre as 27 unidades federativas e, pior, de uma queda em relação a 2022, quando o índice era de 27,4%.
Retrato socioeconômico que explica o recuo
Dois fatores ajudam a entender por que o streaming não decola no estado. O primeiro é a renda. Segundo o IBGE, o rendimento domiciliar per capita no Piauí foi de R$ 1.350 em 2024, bem abaixo da média brasileira de R$ 2.069. Na prática, o orçamento das famílias precisa cobrir prioridades como alimentação e transporte antes de um serviço de streaming pago.
O segundo fator é infraestrutura. A rede de banda larga fixa já alcança 91,9% dos municípios piauienses, patamar até levemente superior ao do Brasil (86,9%), mas a navegação continua concentrada em pacotes móveis de dados, menos estáveis para transmissões de alta definição.
Em 62,2% dos domicílios do estado, o acesso principal é via 4G ou 3G, proporção bem menor que os 83,3% observados nacionalmente. A limitação empurra o consumidor a buscar formatos menos “pesados” que o streaming sob demanda.
Entretenimento digital além do streaming
Mesmo com as barreiras, o apetite piauiense por cultura online não desapareceu, apenas mudou de forma. Vídeos gratuitos no YouTube, transmissões de rádio migradas para apps e podcasts regionais ganharam audiência porque exigem menos banda e não cobram mensalidade.
Outra frente em expansão é o jogo para celular. De acordo com a 12ª edição da Pesquisa Game Brasil, 82,8% dos brasileiros consomem jogos digitais em 2025, e a maioria o faz pelo smartphone. Sendo assim, plataformas nacionais adotaram mecânicas rápidas que cabem em conexões modestas.
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Por exemplo, títulos como Fortune Tiger reproduzem, em poucos segundos, a tensão de um caça‑níquel clássico, com animações leves e possibilidade de jogar pelo celular. Por exigir poucas dezenas de megabytes por sessão, o jogo se adapta bem a quem navega em pacotes pré‑pagos ou em zonas rurais onde o 4G oscila.
Conectividade e inclusão
O governo federal incluiu o Piauí na carteira de obras do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. Mais de R$ 200 milhões foram liberados em 2024 para expandir a fibra óptica em áreas periféricas e comunidades rurais.
A expectativa é que, com latência menor e franquias maiores, o streaming volte a entrar no radar das famílias, concorrendo em pé de igualdade com a TV aberta digital. Um exemplo é o projeto Piauí Conectado, parceria público‑privada que instalou 11.000 km de backbone de fibra, levando sinal a 100% dos municípios dois anos antes da meta.
O Piauí figura hoje como “deserto do streaming”, mas não como “deserto digital”. A baixa adesão às plataformas de vídeo pagas reflete gargalos de renda e infraestrutura, não falta de interesse. Enquanto a fibra não chega a todos, apps gratuitos, rádios online e jogos leves suprem a demanda por entretenimento, mostrando que criatividade tecnológica pode contornar limites de banda.

